Quando trocamos o dia pela noite desalinhamos nosso ciclo circadiano. Isso gera várias alterações no organismo, especialmente na produção de melatonina, cortisol (hormônio do estresse) e GH (hormônio do crescimento) —os dois últimos responsáveis por fazer o corpo "acordar" e enfrentar o novo dia.

Com o impacto no metabolismo, há maior risco de desenvolver obesidade, hipertensão e diabetes tipo 2. Consequentemente, aumenta a probabilidade de ter problemas cardiovasculares. É como se fosse uma bola de neve que só vai ficando maior.

Um estudo da USP (Universidade de São Paulo) com trabalhadores noturnos mostrou que, além do maior risco de doenças relacionadas com a síndrome metabólica, virar a noite favorece o envelhecimento precoce, pois modifica as reações fisiológicas responsáveis pela proteção contra agentes oxidantes.

A saúde mental também é afetada: a pessoa tende a relatar mudanças no humor, além de transtornos ansiosos e sintomas depressivos. Ela fica mais estressada e cansada.

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Trocar o dia pela noite ainda causa outras consequências negativas ao cérebro. É durante o sono que fazemos uma grande manutenção do que aprendemos no dia e formamos memórias —ou simplesmente as descartamos. Quando não dormimos bem, isso é totalmente impactado: ficamos mais distraídos e temos maior dificuldade de aprendizado.

Quando mexemos no ciclo circadiano, a lista de consequências é longa.

Sono é essencial para a sobrevivência. Ele é tão essencial que se você não dormir por vários dias, você morre. Precisamos dar dimensão da importância do ato de dormir. As pessoas, quando precisam cortar algo para ter mais tempo, diminuem as horas de sono como se fosse a coisa mais simples do mundo e que, um dia, elas poderão repor. Mas não é bem assim.

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Relações Sociais Abaladas

Há nove meses, Angel Matheus Araujo, 22, resolveu mudar seu horário de trabalho como motorista de Uber. Pelas ruas da cidade de Boa Vista, em Roraima, ele dirige das 18h às 6h. "Prefiro esse horário porque o valor das corridas é mais alto", explica.

Angel conta que se adaptou rapidamente por causa de empregos anteriores à noite ou de madrugada —como cozinheiro e barman. Mas também tem consciência de que a mudança na rotina traz impactos na vida dele.

Sono perdido não se recupera. A alimentação também é difícil de regular, o que me causa, às vezes, mal-estar, mau humor e estresse.

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O motorista é casado com Ágata e tem um filho de quase 2 anos, o Ravi. Como está trabalhando no horário em que as pessoas normalmente têm "tempo livre", isso impacta suas relações sociais e familiares, principalmente com a esposa. "No começo, abalou bastante, mas depois conseguimos nos adaptar e conciliar as atividades", diz.

Hoje, já mais acostumado, Angel preza para manter a rotina de exercícios físicos, pois também é atleta de futebol americano, além de uma alimentação equilibrada e, principalmente, um tempo para namorar a esposa. Quando precisam de ajuda para encaixar os horários, contam com o serviço de uma babá.

Como reduzir o impacto de trabalhar à noite:

1 - Durma (mesmo que pouco)

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A privação de sono é uma das principais responsáveis pelas consequências negativas à saúde de trocar o dia pela noite. Portanto, é fundamental ter um mínimo diário de horas para dormir --mesmo que esteja claro, mesmo que não seja o tempo considerado ideal.

2 - Mantenha sua rotina de sono

Nas folgas ou aos finais de semana, tente seguir o mesmo horário que você vai dormir nos dias de trabalho.

3 - Melhore o ambiente

Quando for dormir, tente ter um ambiente propício para isso: use cortinas para deixar o local mais escuro e elimine o barulho (com protetor de ouvido, por exemplo).

4 - Adote hábitos mais saudáveis

Tenha uma boa alimentação e inclua a prática de atividades físicas no dia a dia.

5 - Procure um especialista

Se possível, passe em uma consulta médica para receber orientações e, assim, organizar seu sono e sua rotina. Procure, de preferência, especialistas no assunto.

6 - Busque outra oportunidade

Se isso for algo dentro de suas possibilidades, os especialistas explicam que é importante procurar outro trabalho que não seja noturno.